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sobre o autor


Fernando Diederichsen Stickel

Nasci na Pro Matre Paulista em 6 Outubro 1948.

Meus pais Erico e Martha ambos de origem alemã me educaram rigidamente, e aprendi o alemão principalmente no contato diário com nossa governanta Fräulein, mas também com meu avô Arthur Stickel.

Nossa casa na R. dos Franceses era recheada de livros, quadros, gravuras, esculturas, tapetes, tudo muito bonito e arrumado, meus pais se relacionavam principalmente com arquitetos, músicos, gente da arte e da cultura.

Havia na casa um piano, e por um breve período também um orgão elétrico Hammond, que meu pai tocava. O porão, a garagem e o jardim permitiam brincadeiras de todos os tipos, minha infância e de meus irmãos foi basicamente dentro de casa, não havia convivência com vizinhos nem brincadeiras de rua.

Toda minha vivência de bairro e de rua se realizava na minha amizade com Klaus Foditsch, que morava na Rua Barão de Aguiar, ao lado do Aeroporto de Congonhas.

Meu interesse por máquinas, motores, bicicletas, carrinhos, tudo que andasse e tivesse motor já era evidente, e tanto perturbei meus pais que com 16 anos de idade ganhei uma Leonette 50cc.

Com cerca de 20 anos de idade iniciei aulas de desenho com Frederico Nasser, fato que mudou radicalmente minha vida, pois me lançou em velocidade supersonica no mundo das artes, por conta deste pontapé inicial os anos de 1968, 69, e toda a década de 70 foram riquíssimos, e solidificaram minha paixão pela ARTE.

A partir daí a vida continuou com sólidas escolhas e paixões já encaminhadas…

Estudei em 1970 com Baravelli, Fajardo, Nasser e Resende na Escola Brasil: e formei-me pela FAU-USP em 1973.

Nos anos 70 trabalhei como arquiteto e designer gráfico, optando por uma carreira nas artes plásticas em 1980.

Participei de inúmeras exposições individuais e coletivas, recebendo em 1985 o Prêmio Aquisição Desenho, no III Salão Paulista de Arte Contemporânea.

Fui nomeado para o Programa CAPES / FULBRIGHT de especialização em Artes nos EUA, e morei em New York em 1984/85.

Dei aulas de desenho de observação em meus estúdios na Vila Olímpia por 20 anos. Com Anísio Campos promovemos o curso “Oficina de Design de Automóvel” em 1988, 1989 e 1990.

Publiquei os livros: “aqui tem coisa” (poesias e desenhos) pela Editora DBA em 1999 e “Vila Olímpia” (fotos), pela Editora Terceiro Nome em 2006.

Ocupo desde 2004 a posição de Diretor Presidente da Fundação Stickel, instituição sem fins lucrativos visando o desenvolvimento social de pessoas e comunidades através das artes visuais, nossa atuação concentra-se na Brasilândia e Vila Nova Cachoeirinha, distritos da zona Norte de São Paulo.

Concluí em 2009 MBA em Gestão e Empreendedorismo Social pela FIA/CEATS e em 2011 frequentei a Foundation School em Bertinoro, Itália promovida pelo CAF – IDIS.

Venho atuando ativamente no Terceiro Setor, participando de congressos, encontros e seminários.

Optei pela fotografia em 2003, na sequência de 30 anos de carreira nas artes plásticas e ensino de desenho de observação, e expus minhas fotos pela primeira vez na Pinacoteca do Estado de São Paulo em 2006, com curadoria de Diógenes Moura, com a série “Vila Olímpia”.

Minhas obras estão em coleções públicas e particulares, no Brasil e no exterior.

Mantenho desde 2003 este blog “aqui tem coisa”

é isso, por fernando stickel [ 15:19 ]

seu paulo


Hiroshi Okumura

Conhecido como “Seu Paulo” o jardineiro japonês que trabalhou décadas para os meus pais na casa da R. dos Franceses era uma figura.
Tinha hábitos exóticos, como colocar jornal dentro do sapato, cozinhar no quarto e curtir fotografia.
Lia revistas em japonês, e guardava pilhas delas em seu quarto em cima da garagem.
Não se alterava jamais, porém de tempos em tempos procurava minha mãe, tirava os óculos, punha as mãos na cintura e reclamava:
– Dona Marta! Axim no e poxivel! Dona Frola non sabe o que quer!!

Isso porque a “Dona Frola” era desorganizada e pedia para o “Seu Paulo” ir ao Monte Azul, mercearia do bairro umas quinze vezes por dia…

é isso, por fernando stickel [ 10:17 ]

uma história de amor


Seu Paulo e Dona Frola (Fräulein) eram duas figuras ímpares. Ambos solteiros, sem família, um nascido no Japão, outra na Alemanha.
Seus nomes eram Hiroshi Okumura e Lina Johanna Dietze, trabalharam como jardineiro e governanta na casa dos meus pais na R. dos Franceses durante décadas.
Ambos dividiam a guarda do Lumpi, basset que meus pais não gostavam de ver pela casa, e que portanto vivia ou no jardim ou na cozinha.

Dona Frola, já aposentada, morava em uma bela casa na R. Brunilda, e vivia das rendas de outras duas casa que comprou ao longo da vida com a ajuda dos meus pais.

Certo dia, por volta de 1987, cerca de 10:00h eu recebo um telefonema mais ou menos assim:
-Sr. Fernando, eu sou a vizinha da Dona Frola, e estamos preocupados pois ela não abriu a janela hoje.
-Vizinha de muro?
-É, nós conhecemos bem os hábitos dela, acho que aconteceu alguma coisa com ela…
-Estou indo para aí.

Cheguei lá, tudo trancado, batemos na porta, chamamos, gritamos e nada. Liguei para os bombeiros que chegaram e entraram pelo telhado, logo depois abriu-se a porta e me chamaram.
Ela estava deitada na cama, semi-inconsciente, diagnóstico dos bombeiros desidratação grave, levaram-na para o pronto-socorro.
Dei uma olhada na casa, tudo em ordem, era muito limpo e organizado, porém uma coisa me chamou a atenção, na geladeira havia inúmeros potes de margarina, e mais nada.

Daí para a frente um longo processo se seguiu para convencê-la de que não poderia mais morar sozinha, se bem me lembro havia um diagnóstico de Parkinson e/ou Alzheimer. Meu pai negociou com a Sociedade Beneficente Alemã recebê-la, o que aconteceu em 1988, e como ela não tinha herdeiros, acabou por doar seus imóveis à Sociedade, que em contrapartida acolheu-a até seu falecimento.

Agora é que vem a parte interessante da história. Na época em que Dona Frola foi internada, o Seu Paulo, também aposentado, morava em um apartamento na R. Jacarei, a poucos passos da Assembléia Municipal.
Quando ele soube da internação, passou a visitar Dona Frola regularmente, e finalmente acabou por se tornar seu guardião, cuidando dela e vivendo com ela no Asilo, até sua morte.
Alguns anos depois ele também faleceu no Asilo, lembro-me de sua fisionomia na capela, já no caixão. Parecia um Buda. Iluminado e tranquilo.

O escritor Rubem Alves conta esta história de amor bem melhor do que eu, aqui.

é isso, por fernando stickel [ 9:54 ]

lumpi

fraulein
Bilhete que enviei ao meu filho Arthur, alguns anos atrás, quando morreu sua Beagle Madonna:

Arthur,
Quando eu tinha a sua idade, eu e os meus irmãos tínhamos uma babá chamada Fräulein (o nome real dela era Lina Johanna Dietze, mas todo mundo chamava ela de “Dona Frola”), que morava conosco na casa da vovó Martha e vovô Erico, na R. dos Franceses.
A Fräulein tinha um cachorrinho que se chamava Lumpi, era um Dachshund (Salsicha) pretinho.
Teus avós não gostavam de cachorro, e o Lumpi ficava o tempo todo atrás da Fräulein na cozinha, na área de serviço e no jardim, nunca dentro da casa.
Todas as noites ela escovava os dentes do Lumpi, e quado ele morreu, já bem velhinho, foi enterrado no mesmo jardim onde tanto passeou e brincou.

Foi graças à Fräulein que hoje falo alemão razoavelmente, e pude voltar a ter aulas em um nível avançado, pois ela só falava comigo em alemão.

é isso, por fernando stickel [ 12:14 ]

batedeira


Ganhei esta batedeira da minha sogra.
Ao vê-la, imediatamente me vieram lembranças profundas.
Na casa dos meus pais, na Rua dos Franceses, morava com a família uma poderosa governanta alemã, de nome Lina Johanna Dietze, (na foto escaneada de uma 3×4 de 1987) mais conhecida como “Dona Frola”, uma abreviatura tupiniquim de Fräulein (senhorita).
Dona Frola tinha uma incrível habilidade para fazer bolos, tortas e biscoitos, particularmente na época do Natal.
Eu, desde cedo, tinha uma insaciável curiosidade por tudo o que ocorria na casa. Naquela época, ínicio dos anos 50, não existia pré-escola, e as crianças brincavam em casa até a hora de ir para o Kindergarten (jardim de infância) aos 6 anos de idade.
Portanto os assuntos do dia eram variados. Logo cedo acompanhar Dona Maria, a cozinheira, na execução da galinha para o almoço, (tinha galinheiro em casa) observava com certo horror a execução da penosa com um tranco no pescoço, com fascínio e nojo o processo de arrancar as penas, extrair os intestinos, verificar o conteúdo da moela da falecida, etc…
Em seguida descer ao porão e acompanhar o trabalho da costureira, depois andar de velocípede no quintal, à tarde sintonizar o rádio galena, quem sabe produzir um pouco de pólvora no almofariz, e assim passava-se o dia, encapsulado dentro de casa.
Um dos meus assuntos preferidos era ajudar a Fräulein na feitura dos bolos e tortas, e é aí que entra a poderosa lembrança da batedeira…
Grande parte do alemão que falo hoje (“Küchen Deutsch”), devo a Nani, o apelido que eu e meus irmãos usávamos com a Dona Frola.

é isso, por fernando stickel [ 22:05 ]