16 de Outubro de 2004

Durante a ditadura, era comum o governo federal decretar ponto facultativo para esvaziar o Centro do Rio em dia de manifestação programada com antecedência.
Como era grande a concentração de servidores públicos federais no Rio de Janeiro, a medida visava evitar a adesão dos funcionários às manifestações.
Assim aconteceu numa 4ª-feira, 26 de junho de 1968.
Como o ministro José Dirceu deve se lembrar muito bem, a medida do governo resultou em fracasso retumbante. A classe média carioca reagiu. Estudantes, intelectuais, profissionais liberais, donas-de-casa e funcionários públicos tomaram o Centro do Rio, marcharam pela avenida Rio Branco, da Candelária até a Cinelândia, e a Passeata dos Cem Mil entrou para a história da resistência à ditadura.
O mesmo aconteceu numa 3ª-feira, 10 de abril de 1984.
Apesar do ponto facultativo decretado pelo governo do general Figueiredo, mais de um milhão de cariocas foram ao gigantesco comício das diretas, em frente à igreja da Candelária. Um oceano de gente estava ali só para pedir eleições diretas para presidente da República.
Lembrei destes dois episódios porque a Prefeitura de São Paulo decidiu marcar o dia do Funcionário Público, um feriado tradicionalmente móvel, para sexta-feira, dia 29, 48 horas antes do segundo turno da eleição para prefeito.
Não satisfeita, a Prefeitura decretou ponto facultativo dia 1° de novembro, dia seguinte às eleições e véspera do feriado de Finados. Criou-se um feriadão de cinco dias, com uma eleição no meio, para fabricar uma abstenção monstro.
A esta altura, todo mundo já ouviu falar no “Fator Guarujá”, isto é, a torcida dos petistas para que a classe média paulistana desista de ficar na cidade para votar em Serra e parta em massa para curtir o feriadão no litoral.
Espero que os estrategistas da campanha de Marta Suplicy tenham calculado cuidadosamente todas as conseqüências deste ponto facultativo. É manobra de altíssimo risco, que pode ter resultados inteiramente contrários ao que desejam seus autores.
Pode gerar nos paulistanos uma brutal rejeição à prefeita, como reagiram os cariocas às tentativas da ditadura de reprimir a livre manifestação da população.
Ou como reagiu a sociedade civil de todo o país, quando o então presidente Collor incentivou o povo a vestir verde e amarelo num domingo, para mostrar apoio ao governo, e a população vestiu-se de preto, de Norte a Sul do Brasil.
Marta pode ser alvo de uma rejeição destas.
Vamos supor que aconteça um milagre: a classe média paulistana desaparece da cidade e Marta é reeleita. A altíssima taxa de abstenção transformará Marta numa espécie de George Bush de saias: sua eleição poderá ter sido legal, mas será das mais ilegítimas de todos os tempos.
Marta terá que conviver pelo resto da vida com a pecha de ter fraudado a vontade popular, pelo uso abusivo do poder, decretando dois feriados para esvaziar a eleição e estimular a abstenção.
E finalmente, o detalhe preconceituoso. A prefeita que diz ter feito opção pelos pobres, dá dois feriados que só a classe média e os ricos podem aproveitar, porque os mais carentes não têm dinheiro para sair da cidade.
Mas ai dos paulistanos pobres que precisarem de algum serviço público fornecido pela Prefeitura nesses cinco dias de feriado. Vão dar com o nariz na porta, porque a prefeita que optou pelos pobres decidiu dar um feriadão para os ricos.
Lucia Hippolito “Por dentro da política” - CBN

é isso, por fernando stickel [ 16:59 ]

Um comentário

  1. fernando cals

    Mas não adiantou, Stickel!!Danou-se e o Serra foi eleito.Parabéns a São paulo, xará!AbraçosFernando Cals

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