1 de Novembro de 2004

Ufa! Justiça foi feita, o projeto de poder absoluto do PT vai esperar mais um pouco.
O editorial de hoje no Estadao mostra bem o que poderia ser um novo PT:
M uitos podem achar que o prefeito de Belo Horizonte (BH), Fernando Pimentel, teria sido reeleito em primeiro turno com 70% dos votos válidos - como, de fato, foi - qualquer que fosse o partido a que se filiasse, tamanha foi a aceitação popular de sua gestão. As idéias e as posições defendidas por Pimentel, no entanto - do que dá mostra a entrevista que concedeu às jornalistas Maria Lúcia Delgado e Ivana Moreira, do jornal Valor Econômico, publicada 4.ª-feira -, levam a considerar que ele é, efetivamente, um petista convicto, mas faz parte de um grupo de nova mentalidade - se é que já não é seu verdadeiro mentor - que consubstancia um movimento de renovação e arejamento no partido político que mais cresceu no País e chegou ao poder federal.
Leve-se em consideração, antes de tudo, a consciência que revela o prefeito de BH do sentido da cobrança ética que fazem - não só adversários, mas toda a sociedade brasileira - do Partido dos Trabalhadores, justamente porque esse partido, em suas duas décadas de existência, fez da “ética na política” uma de suas principais bandeiras. Ele acha que, por tudo o que diferenciou esse partido, em sua trajetória, apenas cumprir a lei pode ser pouco - pois impõe-se que dê o grande exemplo moral. Com certeza foi por isso - afora outras considerações estratégicas, atinentes ao marketing eleitoral - que durante a campanha o candidato do PT em Belo Horizonte não apresentou nenhum dos programas gravados, para o horário gratuito na televisão e rádio, com apoio explícito à sua candidatura, do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do vice-presidente José de Alencar (um político mineiro forte) e de alguns ministros. Talvez o candidato petista tenha procurado deixar clara a saudável diferença entre as máquinas partidária e governamental.
Mais importante - e seguramente mais moderna, por conseguir enxergar muito além dos limites do interesse partidário e demonstrar percuciência quanto a uma perspectiva futura - é a visão de Fernando Pimentel a respeito da qualidade do atual quadro partidário do País. Disse ele: “Temos no Brasil dois partidos sólidos, enraizados, muito tipificados, que são o PT e o PSDB. Sem nenhum demérito para as demais forças partidárias, que também são importantes, esses dois partidos, pela sua conformação, pelo seu desenho, pela forma e pela história, são os partidos que têm projeto para esse país e condições de implementá-los. PT e PSDB são partidos sérios, responsáveis. Podem estar de lados opostos de vez em quando, mas um não duvida do outro no quesito compromisso com a nação brasileira, com a construção de um país melhor.”
E Pimentel continua: “Se é assim, por que é que não podemos imaginar um cenário em que esses dois partidos conversem maduramente sobre as grandes questões nacionais e caminhem juntos nestas questões, sem abrir mão da identidade partidária, das divergências pontuais, das disputas locais? Por exemplo: não precisamos da reforma política no Brasil? Não é possível que as lideranças do PT e do PSDB sentem e construam um caminho para essa reforma? Não precisamos avançar na questão tributária? Por que os dois partidos não podem construir juntos uma saída?”
Eis aí, realmente, uma nova mentalidade petista, que parece repudiar a velha crença no “jogo de soma zero”, pelo qual o embate político-partidário ou a luta pelo poder implica o crescimento de um apenas à custa da eliminação de seu adversário - situação em que nenhum pode acrescer a outro. O prefeito reeleito de Belo Horizonte admite, explicitamente, esse novo PT que está surgindo, ao responder à última pergunta feita pelos entrevistadores, nestes termos: “Já há claramente no PT esse sentimento de que há uma coisa nova, que não sou (só) eu, mas também o João Paulo (Recife), o Marcelo Déda (Aracaju), que têm uma leitura diferenciada da realidade e uma postura diferente da postura mais hegemônica no partido.”
É difícil de se prever se, com a evolução do quadro político-eleitoral vigente e o efeito que estas eleições municipais terão no posicionamento das forças políticas do País, seja do lado do governo ou do das oposições, essa nova mentalidade acabará prevalecendo, no fracionado PT, contribuindo assim para a transformação de um partido empenhado num projeto genérico de Poder em outro com sólido e consistente projeto de governo. Mas é uma possibilidade e quem viver verá.

é isso, por fernando stickel [ 10:34 ]

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