31 de Março de 2003

No meio da bruma São Paulo acorda, e nada melhor para começar a semana do que esta pérola:
ACORRENTADOS de Paulo Mendes Campos, do livro “O Anjo Bêbado”, Editora Sabiá - Rio de Janeiro, 1969.
Quem coleciona selos para o filho do amigo; quem acorda de madrugada e estremece no desgosto de si mesmo ao lembrar que há muitos anos feriu a quem amava; quem chora no cinema ao ver o reencontro de pai e filho; quem segura sem temor uma lagartixa e lhe faz com os dedos uma carícia; quem se detém no caminho para ver melhor a flor silvestre; quem se ri das próprias rugas; quem decide aplicar-se ao estudo de uma língua morta depois de um fracasso sentimental; quem procura na cidade os traços da cidade que passou; quem se deixa tocar pelo símbolo da porta fechada; quem costura roupa para os lázaros; quem envia bonecas às filhas dos lázaros; quem diz a uma visita pouco familiar: Meu pai só gostava desta cadeira; quem manda livros aos presidiários; quem se comove ao ver passar de cabeça branca aquele ou aquela, mestre ou mestra, que foi a fera do colégio; quem escolhe na venda verdura fresca para o canário; quem se lembra todos os dias do amigo morto; quem jamais negligencia os ritos da amizade; quem guarda, se lhe deram de presente, o isqueiro que não mais funciona; quem, não tendo o hábito de beber, liga o telefone internacional no segundo uísque a fim de conversar com amigo ou amiga; quem coleciona pedras, garrafas e galhos ressequidos; quem passa mais de dez minutos a fazer mágicas para as crianças; quem guarda as cartas do noivado com uma fita; quem sabe construir uma boa fogueira; quem entra em delicado transe diante dos velhos troncos, dos musgos e dos liquens; quem procura decifrar no desenho da madeira o hieróglifo da existência; quem não se acanha de achar o pôr-do-sol uma perfeição; quem se desata em sorriso à visão de uma cascata; quem leva a sério os transatlânticos que passam; quem visita sozinho os lugares onde já foi feliz ou infeliz; quem de repente liberta os pássaros do viveiro; quem sente pena da pessoa amada e não sabe explicar o motivo; quem julga adivinhar o pensamento do cavalo; todos eles são presidiários da ternura e andarão por toda a parte acorrentados, atados aos pequenos amores da armadilha terrestre.
é isso, por fernando stickel [ 10:46 ]
30 de Março de 2003

Peguei na Cora.
é isso, por fernando stickel [ 21:58 ]
29 de Março de 2003

Página do catálogo do José Carlos BOI Cezar Ferreira na exposição “2 metros e 1 página”, promovida pela Cooperativa dos Artistas Plásticos de São Paulo, Abril 1980.
é isso, por fernando stickel [ 17:32 ]

Almocei com a minha lebre no quilo da esquina, a R$ 10,00 cada. Honesto. Em seguida um bom espresso acompanhado de um Partagas D4. Pronto. Meia hora no sofá e estou pronto para trabalhar.
é isso, por fernando stickel [ 17:31 ]
Quando tinha lá pelos 13 ou 14 anos de idade, encrencado como qualquer adolescente, meus pais acharam por bem que eu deveria ter ajuda profissional, e embarcamos eu e meu pai rumo ao Rio de Janeiro, onde eu seria atendido pelo papa da psicologia, um tal de Mira Y Lopez.
Chegando ao consultório, um escuro apartamento em Copacabana, meu pai se afastou e eu fiquei frente a frente com o monstro que insistia em saber quem eram os meus ídolos, e eu dizia que não os tinha, e ele insistia, - mas você não gosta de futebol?, e eu dizia que não, e ele insistia, -mas você não gostaria de ter um autógrafo do seu jogador preferido?, e eu pacientemente explicava ao doutor que não tinha (não tenho até hoje) o menor interesse por futebol.
Hoje, posso dizer alto e bom som ao doutor que tenho um ídolo, Michael Moore, que comenta a festa do Oscar assim:
“Um pequeno conselho aos futuros ganhadores do Oscar: não comecem o dia do Oscar indo à igreja.”
PS: Meu lucro da visita ao doutor são as deliciosas lembranças que ficaram daqueles dois ou três dias no Rio de Janeiro, sozinho com meu pai, hospedado no Hotel Miramar, no Posto 6, dos almoços em restaurantes à beira da praia, do cheiro do mar.
é isso, por fernando stickel [ 11:05 ]

Coisas do estúdio.
é isso, por fernando stickel [ 1:16 ]
28 de Março de 2003

Taxa do lixo: Melhor para São Paulo, melhor para você.
Melhor para mim??? Sei…. mmmm… quanto será que Marta Suplicy et Monsieur Favre vão levar desta vez, hein???!!!
é isso, por fernando stickel [ 17:42 ]

O mau-gosto não conhece limites.
Em plena Av. Helio Pellegrino, esquina da R. Nova Cidade na Vila Olímpia, este out-door clama para ser destruído por algum play-boy mais afoito em sua máquina.
Já enviei reclamação ao CONAR, vamos ver se adianta alguma coisa.
é isso, por fernando stickel [ 13:57 ]

Olhando este meu desenho de 1971 me pergunto se é realmente necessário muito mais do que lápis, papel, máquina fotográfica e um cérebro pensante.
é isso, por fernando stickel [ 11:13 ]
27 de Março de 2003
Minha amiga Cassia Gonçalves me enviou este delicioso poema de Fernando Pessoa:
Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.
é isso, por fernando stickel [ 19:39 ]

Algumas que fui tirar bem lá do fundo do baú…
Excursão ao Pico do Selado Julho 1964. Da esq para a dir, eu, Mauricio Guerra de Oliveira, Klaus Fridrich Foditsch, falecido, e William Hering, nosso guia. O programa era escalar e descer no mesmo dia, mas chegando lá em cima a luz da tarde acabou-se, não pudemos descer e passamos uma noite ao relento a 2090 m de altitude, em pleno inverno, bebendo água de bromélias e morrendo de frio.
Ensaio do Conjunto Coral de Câmera de São Paulo, 1966. Em primeiro plano nosso regente Klaus Dieter Wolff, falecido em 1974. Estou de pé, no fundo.
Esta foto foi tirada pelo meu falecido amigo e colega arquiteto Leslie Joseph Murray Gattegno, na Bienal de São Paulo,1969. Estou observando as pinturas do artista canadense Greg Curnoe, 1936 - 1992.
é isso, por fernando stickel [ 18:40 ]
26 de Março de 2003

Sem direção.
é isso, por fernando stickel [ 18:09 ]

Coisas no estúdio.
é isso, por fernando stickel [ 0:42 ]
25 de Março de 2003
Recém-nascido poema da Ledusha:
Espreito sobre a pedra do meu peito:
Inerte feito lagarta
Pisco sem horário fixo
Assim como virgulo à esmo
Com agudez de flecha espicho
A lépida língua ambígua e fisgo
Tudo que se arrisca a musgo ou visco
E desse ponto de vista vesgo, misto
Visto de outras vozes
Tudo que se chama
Chispa, nesga, caco, cisco
Pensam que de versar fiquei extrema:
Papo pro-lixo!
Pinço a brisa, lambo a pista
Sem fricotes poucas vezes desvario
Desprego a peça, pago o fisco
Quase nunca é só no coração que arde
O verso arisco
é isso, por fernando stickel [ 10:21 ]

Na mega-exposição Documenta de Kassel, realizada no ano passado na Alemanha, Cildo Meirelles apresentou um picolé da mais pura água, com o título DISAPPEARING / DISAPPEARED ELEMENT.
Estes picolés eram vendidos a 1 Euro cada em diversos carrinhos de sorvete espalhados por todos os locais da exposição.
é isso, por fernando stickel [ 1:25 ]
24 de Março de 2003

Fiz este desenho comemorando os 80 anos do meu pai, Erico João Siriuba Stickel em 3 Abril 2000.
é isso, por fernando stickel [ 14:29 ]
23 de Março de 2003

Sonhei com uma Rural Willys “saia e blusa” vermelha e branco novinha em folha.
Eu guiava numa saída de escola ou aglomeração semelhante. Ofereci uma carona aos meus pais, e minha mãe foi incapaz de entender ou aceitar a oferta. Conversei com ela e expliquei que o problema não era imenso, era apenas aceitar ou não a carona.
é isso, por fernando stickel [ 12:29 ]

Meu vô e minha vó, por parte de mãe, Ernesto e Maria Elisa Diederichsen.
é isso, por fernando stickel [ 0:54 ]
22 de Março de 2003

Entre enxurradas de spams malditos, me escreveu assim (ah, que alívio, um e-mail dos bons) minha recém adquirida amiga Ledusha:
caríssimo,
seu blog a cada dia mais esperto, mais sensível, viva! sexta acho que tava todo o planeta assim down… como poderia ser de outro modo, com o mundo dilacerado pela estupidez? uma taça de sauvignon de um dourado translúcido, lindo: santo remédio.
vai abaixo um poemeto como prometi.
beijinho, tenha um belíssimo weekend.
ledusha
Trânsito
Lembranças de vaias arando as veias, uma e outra ave persistente no céu de caracóis. Suspiros, canteiros de sonho, saudades do mar. Tapas de pelica como luvas, dúvidas vazando insanos guetos, luzes que vertem sombras, desejo solar. Ternura, amizade, trabalho, tua pronúncia peculiar. Buzinas intolerantes, celulares intoleráveis, vorazes olhos de vidro, carrapatos de uniforme, plantonistas da ambição. A vida em câmara lenta, tímida alegria a insinuar seus dedinhos, farpas contaminadas, luta bruta, pulsação.
é isso, por fernando stickel [ 14:06 ]
21 de Março de 2003

Certa sensação de intranquilidade, ansiedade coletiva, algo no ar, sei lá, a doença do meu pai, a recém-instalada banheira nova que vazou para o andar de baixo, a guerra, a guerra, a guerra, as crianças refugiadas na chuva e na lama, as mentiras e os videoteipes, o oficial de justiça trazendo algo que aconteceu 10 anos atrás e que você nem sequer poderia imaginar, quanto mais prever, a dor nas costas, que vem mais do que vai, dias tensos, o trabalho emperrado, o tempo feio, acho que vou beber algo.
é isso, por fernando stickel [ 17:01 ]

Vindo de quem veio, este elogio ao meu “aqui tem coisa” é o maior incentivo que poderia haver.
Obrigado, CORA!!!!
é isso, por fernando stickel [ 13:04 ]

Justiça seja feita.
Visitei ontem à noite o Hotel Unique, obra do binômio Ruy Ohtake / Victor Siaulys na Av. Brig. Luis Antonio.
Não vou comentar o exterior, mas devo dizer que os interiores, particularmente os elevadores, restaurante, bar e a recepção são gloriosos.
O terraço do bar/restaurante tem a melhor vista de São Paulo. O quarto é pequeno, muito interessante, com a banheira comunicando-se com o quarto através de um biombo que se abre na vertical. Vidrotil transparente no banheiro, nunca tinha visto, lindo. Surpresa total após o imenso desânimo ao ver subir o monstro do prédio do Instituto Tomie Ohtake em Pinheiros.
é isso, por fernando stickel [ 12:40 ]
20 de Março de 2003

Linda manhã de quinta-feira em São Paulo, após visitar meu pai convalescente, vejo no Parque do Ibirapuera bebês dormindo à sombra em seus carrinhos, vejo calma e harmonia, ouço em uma ou outra conversa captada a esmo as palavras guerra e americanos.
Em Washington uma cambada de tecnoburrocratas emitem ordens e em Bagdá os inocentes começam a morrer, no resto do mundo começamos a pagar a imensa conta. Que merda. Mais alguns dias e começam a chegar os body-bags. Que vergonha.
Logo no início da tarde a banalizaçao da guerra, show na TV, balas, explosões, clarões, tudo na nossa sala, e de vez em quando Ari Fleischer dá explicações ao vivo em tom absolutamente normal, como se comentasse algum jogo de baseball.
é isso, por fernando stickel [ 13:04 ]
18 de Março de 2003

A guerra é aqui, e quase fui vítima.
Por volta das 14:30 de hoje, descendo a Al. Joaquim Eugênio de Lima a bordo de um taxi, quase na esquina da Estados Unidos, escuto um estampido e olho para o lado, dois moleques em cima de uma moto, de capacete, o garupa com uma enorme pistola (ou revolver, não entendo nada disso…) .45 cromada, atirando para trás.
Tento ver o que está acontecendo, na esquina anterior uma moto caída no meio da rua e um motoqueiro tentando se levantar, enquanto isso os dois na moto somem no meio do trânsito.
Olho para o taxista, com quem vinha conversando sobre a guerra, e comento que poderíamos ter sido nós a tomar uma bala perdida. Segurança não existe.
Viva todos os seus dias como se fosse o último.
é isso, por fernando stickel [ 16:12 ]

Quando fiz meu livro aqui tem coisa, escrevi na introdução:
“Uma boa maneira de trazer à luz coisas que de outra forma permaneceriam ocultas na solidão de cadernos e pastas.”
Me referia aos desenhos que incluí junto com as poesias.
Agora estou gostando muito dessa história de blogar. Talvez não tenha encontrado ainda o equilíbrio ideal que gostaria entre todas as minhas vontades e interesses, talvez ande exagerando no uso do meu brinquedo novo, a câmera digital, mas no final das contas estou ADORANDO, inclusive porque continuo a garimpar nos meus cadernos e pastas por outras coisas, igualmente significativas, como minha motocicleta Mondial (Mondialino) 50cc, com a qual infernizava (sem capacete) as ruas calmas de São Paulo em 1966.
é isso, por fernando stickel [ 11:54 ]
17 de Março de 2003

Antonio Prata, este menino merece. O humor dele é o máximo, comecei a ler As Pernas de Tia Corália e desatei a rir já nas primeiras linhas. Recomendado para segundas-feiras chuvosas.
é isso, por fernando stickel [ 23:15 ]
16 de Março de 2003

Papai teve alta hoje e já está em casa, feliz da vida!
é isso, por fernando stickel [ 22:06 ]

Hoje, 16 Março 2003, o meu amigo Cassio Michalany completa 54 anos bem vividos.
Foto que fiz dele no portão do seu estúdio na Vila Nova Conceição, 24 Dezembro 1982.
é isso, por fernando stickel [ 14:13 ]

Very important drawing, estilo talk a little.
Ganhei do Frederico Nasser em 17Agosto 1970.
é isso, por fernando stickel [ 14:07 ]

Onze cobras e um destino.
é isso, por fernando stickel [ 13:30 ]

Victor Brecheret, Monumento às Bandeiras no Parque do Ibirapuera, primeiros estudos na década de 20, inaugurado em 25 Janeiro 1953.
Spencer Tunick, Parque do Ibirapuera, instantâneo em 27 Abril 2002. Estou lá, sétima fila de cima pra baixo, quarta coluna da esquerda pra direita…
é isso, por fernando stickel [ 12:39 ]

Que estranho, o Estadão não publicou uma linha sequer sobre os protestos contra a guerra ontem. Ideologias à parte, que eu saiba, notícia é notícia.
é isso, por fernando stickel [ 12:06 ]
15 de Março de 2003

Na passeata de hoje à tarde contra a guerra no Iraque, a única palavra que não ouvi ser proferida foi PAZ.
Os organizadores berravam do alto do caminhão as famosas palavras de ordem como CONTRA O IMPERIALISMO AMERICANO, homenagens diversas aos mais obscuros grupos políticos, ao MST, MR8, CUT, PcdoB, PSTU e por aí vai.
Tudo bem, a passeata foi pacífica, valeu, TUDO vale contra a guerra, mas os discursos foram insuportáveis.
é isso, por fernando stickel [ 21:02 ]